Tecnologia

Por que o Nubank quase fechou as portas em 2016?

“Nós já fizemos algumas simulações. Com dois dias é apagar a luz e fechar a porta", Cristina Junqueira, co-fundadora do Nubank

Que é complicado empreender no Brasil todos nós sabemos. De qualquer maneira, um mercado grande como o nosso esconde algumas oportunidades que, se aproveitadas, podem gerar resultados satisfatórios. Foi observando o comportamento dos consumidores brasileiros que, em 2013, sob o slogan “A nova geração de serviços financeiros no Brasil”, David Vélez fundou o Nubank com a ajuda de outros dois co-fundadores: Edward Wible e Cristina Junqueira.

 

Fintech

O Nubank é uma organização de um gênero chamado Fintech. Uma Fintech (Financial Technology – Tecnologia Financeira) busca criar soluções para serviços financeiros já existentes utilizando novas tecnologias na tentativa de desburocratizar o funcionamento de tudo. A Paypal é um ótimo exemplo disso.

A grande questão que envolve as empresas desta categoria pode ser analisada aos observarmos o mercado tradicional. Para que tenha acesso ao crédito – e por isso lê-se um cartão de crédito -, normalmente uma pessoa precisa se apresentar em uma agência bancária com todos os seus documentos em mãos, esperar algumas horas numa fila, descobrir qual o valor a ser pago pela anuidade do serviço, analisar a taxa de juros do crédito rotativo, assinar pelo menos uma dúzia de papéis, comprovar a renda na maioria dos casos, voltar pra casa e aguardar a chegada do cartão. Ufa!

Você consegue identificar todos os custos que existem nesse processo? Vamos citar alguns:
Só no que diz respeito à agência podemos assinalar os gastos com água, energia elétrica, pessoal, equipamentos, segurança, e mais uma série de outros pequenos custos que não vêm ao caso. Agora multiplique isso por pelo menos 4 mil (sendo bem modestos), supondo que este seja o número de agências de uma mesma instituição financeira no Brasil. Vale lembrar que o nosso país tem, segundo o último dado oficial, algo em torno de 5570 municípios.

Além das agências, existe toda uma estrutura tecnológica, com data centers e mais uma infinidade de recursos necessários para manter todos os caixas eletrônicos funcionando, os computadores que serão usados para a abertura de contas e a manutenção destas, além de um aparato para que as informações dos clientes fiquem seguras.

Todo este processo é burocraticamente caro. A Teoria Burocrática, utilizada na administração de algumas áreas, embora não possa ser completamente removida do mercado financeiro, se mostrou altamente onerosa. Isso torna o gerenciamento de um banco eficaz quanto ao seu objetivo, mas bem pouco eficiente no gerenciamento de capital. Além disso, o público que utiliza serviços bancários está um tanto quanto insatisfeito com o modus operandi do sistema. E avaliando isso, as empresas do gênero fintech encontraram um mercado consumidor mais jovem, que odeia pegar filas, e que nunca desligam seus smartphones.

 

O Nubank recebeu um aporte de 80 milhões de dólares realizado pela DST Global, um fundo que busca fomentar empresas de internet. Este foi o primeiro investimento do fundo na América Latina.

 

Nubank

Com sede em São Paulo, o Nubank surgiu em maio de 2013, e o seu produto é um Cartão MasterCard sem tarifas e anuidade. O grande destaque do serviço é gerenciamento do cartão, realizado unicamente por meio de um aplicativo disponível para Android, iOS e Windows Phone, além da compatibilidade com o Apple Watch.

Após ser aprovado no processo de seleção, é possível utilizar o aplicativo para criar uma conta, pedir aumento de limite, bloquear o cartão no caso de perda ou roubo, controlar cada transação em tempo real e gerar o boleto para o pagamento da fatura. Mais recentemente a empresa disponibilizou uma opção, exclusiva até então, em que o consumidor pode antecipar o pagamento de parcelas e ganhar desconto.

Suponhamos que você tenha realizado uma compra de R$1000,00 no mês passado e optou por parcelar em 10 vezes. A primeira parcela, neste caso, já foi paga. Ainda que hajam nove parcelas, e consequentes nove meses para pagar, você está com o dinheiro em mãos e deseja liberar o seu limite para realizar uma nova compra. Fazendo a sua antecipação, é possível conseguir um desconto. A porcentagem, que é variável, garante que você pague um pouco menos que os R$900,00 restantes.

Embora algumas pessoas não compreendam muito bem como a empresa pode gerar tais descontos, o processo é relativamente simples: O valor antecipado será aplicado em algum fundo que tenha uma taxa de rendimento maior que a taxa do desconto. O Nubank passará os próximos meses com esse dinheiro em “caixa”, repassando-o para o lojista sem antecipação. Ou seja, num intervalo de 9 meses, o Nubank pagará pouco menos de R$100,00 mensalmente, ao passo em que o restante do dinheiro continua aplicado… E rendendo!

De qualquer maneira, independente dessa função, o serviço já se destacava por oferecer ao consumidor uma taxa de juro rotativo mais baixa que a praticada pelo mercado. Isso acontece porque, como citamos lá em cima, a empresa não disponibiliza um cartão para todas as pessoas interessadas. É preciso passar por um processo de seleção que, por meio de uma tecnologia própria, consegue avaliar o comportamento do consumidor que deseja “ser Nu”. Isso permite que apenas um grupo mais “correto”, digamos assim, consiga acesso ao cartão, evitando calotes, e o consequente aumento dos juros. Além disso, eles variam de cliente para cliente, de acordo com o perfil de cada um.

Passada a parte de explicações básicas sobre como o Nubank conseguiu se diferenciar num mercado como o brasileiro, ainda cabe espaço para lembrar que a empresa foi premiada várias vezes:

  • 2016 – Prêmio Marketers That Matter, do Sage Group do Vale do Silício.
  • 2016 – Melhor Empresa B2C pela Latam Founders Network (LFN) Awards pelas com atividades voltadas diretamente ao consumidor.
  • 2015 Empresa mais inovadora – Annual Awards Gala realizado por Latam Founders.
  • 15 empresas inovadoras que marcaram 2015 pela Revista Época.
  • 4° melhor aplicativo de 2015 para iOS pela Apple.
  • Aplicativo mais inovador para iPhone de 2015

 



 

Mudança na política econômica

No início de Dezembro passado, o Nubank recebeu um aporte de 80 milhões de dólares realizado pela DST Global, um fundo que busca fomentar empresas de internet. A título de curiosidade este foi o primeiro investimento do fundo na América Latina. O dinheiro, segundo a equipe de administração será usado para aumentar o número de clientes, melhorar o aplicativo e contratar funcionários. Neste mesmo período, o valor de mercado da empresa estaria à beira de 1 bilhão de dólares.

Tudo muito lindo, tudo correndo muito bem… Até que a internet veio abaixo na segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016. Na semana anterior à data, durante a apresentação do pacote de medidas para impulsionar a economia, o presidente Michel Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deixaram claro a intenção de mudar a regra na forma como o dinheiro seria repassado para os lojistas.

Até então, as empresas de cartão de crédito tinham 30 dias para repassar os valores recebidos para os estabelecimentos. No entanto, caso a proposta fosse aprovada pelo Banco Central, o prazo passaria para DOIS dias (!)… Uma mudança brusca se implementada no curto prazo.

Do ponto de vista dos micro e pequenos empresários, em especial, esta seria uma medida interessante, visto que a modalidade de crédito com o prazo de 30 dias para o recebimento do dinheiro compromete o orçamento de alguma forma. Contudo, do ponto de vista do Nubank que, apesar de famosa, não está vinculada a nenhuma instituição financeira grande, como é o caso do concorrente Digio – fruto de uma parceria entre Banco do Brasil e Bradesco -, a situação se complicaria um pouco.

Da maneira como o sistema funciona, uma compra feita por um cliente é normalmente paga num prazo de 26 dias. Ou seja, o Nubank faz a captação do dinheiro e repassa para as empresas que possuem o serviço de maquininha de cartão, como Cielo, Rede e PagSeguro, e estas para o lojista. Em caso de mudança, o dinheiro teria de ser enviado em dois dias, e a captação 24 dias após o repasse. Ou seja, a empresa precisaria de um grande capital de giro para cobrir tal antecipação. Complicado para quem fechou 2015 com um prejuízo de R$ 32,7 milhões. Sim, o Nubank ainda não gera lucro!

Cristina Junqueira, que citamos no primeiro parágrafo, foi categórica em suas palavras, afirmando a redução dramática do prazo seria apocalíptica para o Nubank. “Nós já fizemos algumas simulações. Com dois dias é apagar a luz e fechar a porta. Com 15 dias, a gente precisaria de quase R$ 1 bilhão de capital adicional do dia para a noite”, disse, na época.

Por sorte, o Banco Central anunciou na terça-feira (20 de Dezembro) as tais medidas para melhorar o sistema financeiro e tornar o crédito mais barato, mas sem alterar o prazo de repasse do dinheiro das compras realizadas com cartão de crédito.

Segundo o BC, um trabalho conjunto seria realizado com as instituições financeiras de modo que as medidas relacionadas ao tema possam ser tomadas de forma sustentável, sem prejudicar a concorrência. O Nubank comemorou a notícia por meio de uma nota intitulada O futuro é roxo.

O Nubank tem incomodado os grandes bancos desde a sua fundação. Milhares de pessoas deixaram de ter contas em banco para apenas ter o cartãozinho roxo. Mais recentemente, a empresa tem dado pistas sobre o seu programa de benefícios, o Nubank Rewards, atualmente em testes.

fonte: Wikipédia (Nubank), Wikipédia (Fintech), Gizmodo

Adriano Pereira

Nascido em Ibotirama-Bahia, é o namorado da Bianca, curte automóveis, tecnologia e está sempre em busca de um bom livro para ler.